O som, o ritmo, não são apenas "efeito especial" na poesia; como na canção, são a engrenagem. Podemos dizer que são como a imagem pública de uma pessoa, a aparência. Por isso, a canção consegue uma absorção mais rápida, ela é como o para-si, de Sartre. Ao escolher determinados fonemas, palavras, figuras de linguagem, o poeta tem a possibilidade de trabalhar símbolos que representam sentimentos, ações. O mesmo acontece quando um cancionista decide utilizar um determinado instrumento: imagine uma percussão, com duas pulsações alternadas, forte e fraca, em uma rápida velocidade . O som cria na cabeça do ouvinte uma sensação; sem mesmo nem ter ouvido a letra, ele já cria uma imagem da canção.
Já a letra e o poema são como a intimidade do ser. O poema e a canção são o ser Em-si. As escolhas das palavras - mesmo influenciadas pela escolha do ritmo e rima - criam camadas as serem reveladas e mesmo sendo muito bem analisadas, elas não representam o mesmo para o compositor/poeta e o leitor/ouvinte.
A distinção entre linguagem da música e música da linguagem ocorre principalmente no espaço erudito, onde o local de publicação torna-se muito importante por questões econômicas e de status social. No popular, as duas formas se unem. Podemos ver exemplos disso no samba brasileiro, onde os compositores afirmam que a letra é poesia e os compositores são poetas. Na Idade Mídia (Rodrigo Garcia Lopes) os distanciamentos entre canção e poesia tornam-se menores, pois os recursos multimídia permitem se ver, ouvir e ler um poema ou uma canção ao mesmo tempo. Esses recursos abrem caminhos para intensificar ainda mais o caráter performático da poesia, aproximando-a ainda mais do público de hoje.
Já a letra e o poema são como a intimidade do ser. O poema e a canção são o ser Em-si. As escolhas das palavras - mesmo influenciadas pela escolha do ritmo e rima - criam camadas as serem reveladas e mesmo sendo muito bem analisadas, elas não representam o mesmo para o compositor/poeta e o leitor/ouvinte.
A distinção entre linguagem da música e música da linguagem ocorre principalmente no espaço erudito, onde o local de publicação torna-se muito importante por questões econômicas e de status social. No popular, as duas formas se unem. Podemos ver exemplos disso no samba brasileiro, onde os compositores afirmam que a letra é poesia e os compositores são poetas. Na Idade Mídia (Rodrigo Garcia Lopes) os distanciamentos entre canção e poesia tornam-se menores, pois os recursos multimídia permitem se ver, ouvir e ler um poema ou uma canção ao mesmo tempo. Esses recursos abrem caminhos para intensificar ainda mais o caráter performático da poesia, aproximando-a ainda mais do público de hoje.
Heloísa Sousa
3 comentários:
Heloísa, gostaria de esclarecer uma questão do seu texto. Não compreendi muito bem sua afirmação “podemos dizer que são como a imagem pública de uma pessoa, a aparência”. Poderia explicar melhor essa passagem? Quem seria essa “pessoa” a qual você se refere? O que são essas coisas que podem ser tomadas como “aparência”?
Anderson,
talvez, eu tenha escolhido mal a palavra ao colocar pessoas (tentei deixar o texto mais blogeiro e menos acadêmico), mas são todos os seres (sujeitos). Pois como dizem alguns filósofos existencialistas, nenhum ser pode alcançar a essência mais íntima do Outro. O olhar impede que qualquer ser exerça sua essência por completo (as vezes por vergonha ou orgulho, como diz Sartre). Então, acaba-se criando duas vidas. Uma realizada no âmbito público (social) e outra no espaço privado (íntimo). Esse último é o espaço onde o ser (homem) tende a se liberar e se mostrar mais. Por isso, eu fiz analogia com o ritmo e som, letra e poesia. Já que o som e o ritmo é o primeiro que nos chega, não precisamos de grandes raciocínios para entende-los (seria a vida pública, onde com pouca informação os Sujeitos fazem julgamentos dos Outros). A letra poética e o poema precisam de um tempo maior para serem compreendidos, ir mais a fundo (a vida íntima, onde os seres se mostram e se relacionam de forma mais profunda, sem ter a vergonha ou o orgulho de ser visto/olhado pelo outro).
Heloísa, havia interpretado essa passagem do seu texto de outra maneira. Pensei que você estivesse se referindo ao "ethos" do artista, à imagem que é construída pelo discurso. O artista encarna uma personagem que é construída e mantida por meio de seus discursos (nas coisas que diz, no seu comportamento, no seu modo de vestir e de se apresentar às pessoas, os valores ideológicos que transmite). A meu ver, esse "ethos" não é apenas uma auto-imagem do artista, mas um paradigma a ser adotado pelo público, através do mecanismo de identificação. Por isso, a ação desse artista é essencialmente performática (no caso, acho que estamos falando mais especificamente do cantor). E daí o fato da voz do poeta, no contexto da cultura midiática, soar tão inaudita, como o silêncio que jazz no limbo das palavras. Além dos existencialismos, penso que a relação entre a canção e o poema requer uma reflexão diacrônica, que nos possibite integrar essas duas vidas das quais você fala: que o sujeito possa se mostrar mais no âmbito público, e ser capaz de conviver com a "palavra-flor" no meio social; e que o ritmo e a poesia da canção atravessem os sentidos imediatos e revelem para o homem que é preciso mais tempo para o íntimo, e que o conhecimento também vem das experiências estéticas.
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