Blog criado pelos alunos do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, do curso sobre CINEMA, CANÇÃO E LITERATURA NA FRANÇA, ministrado pelo professor Adalberto Müller, para divulgar textos, imagens e canções.

domingo, 24 de agosto de 2008

Gainsbourg-Godard

Alphaville - Jean-Luc Godard




O Gainsbourg-Godard é um transgênico, uma fusão intermidiática de canção, cinema e literatura. Ele comprova que os genes da Arte são naturalmente híbridos. Em La chanson de Prévert (Enregistré lors de l'émission "Discorama", le 28 avril 1961) é possível observar uma seqüência de nucleotídeos também encontrada no DNA de Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution (1965). Podem-se confrontar os “éxons” (segmentos codificadores individuais que são traduzidos na cadeia polipeptídica formada por cromossomos poéticos) com as enzimas produzidas nos centros líricos de força. No vídeo da canção, Gainsbourg olha para a câmera, que o enquadra em plano médio e, posteriormente, em primeiro plano. Sua performance faz um contraponto com a música. De um lado, a paisagem sonora se estende aos domínios do lírico, promovendo o estado anímico da “recordação”; de outro lado, em contraposição, o corpo do cantor não se desloca no espaço, permanecendo o tempo todo quase parado. A imobilidade de seu still act é compensada pelos parcos e contidos movimentos e efeitos de câmera (zoom), que sustentam a tensão entre som e imagem. No pano de fundo da cena, a figura de um semáforo, alternando consecutivamente dois sinais de luz, remete-nos diretamente a uma seqüência do filme de Godard. Em Alphaville, o ato performático de Lammy Caution (Eddie Constantine) e Natacha von Braun (Anna Karina), quando estes discutem o sentido do amor, tem aspectos e elementos muito semelhantes ao vídeo da canção de Gainsbourg. Na seqüência cinematográfica, concorrem o poema de Paul Eluard (do livro Capital de la douleur), o movimento dos corpos dos atores, a contraste entre claro e escuro da fotografia, os naipes de cordas que compõem o fundo musical, a voz de Natacha recitando o poema, a montagem coreográfica do cineasta. No filme, a relação entre imagem e som serve ao ato performático, como no vídeo de Gainsbourg. É como se o poema de Eluard compusesse uma canção, juntamente com o fundo musical. Se Gainsbourg permanece imóvel, na cena de Godard os atores dançam. O sinal de luz intermitente, como de um semáforo, faz com que a imagem dos planos se alternem entre claro e escuro, imagem e escuridão total. Seria o semáforo de La chanson de Prévert? No mais, a letra da canção instiga a discussão sobre a autoria, revelando o caráter híbrido do gênero. A questão do autor é o tema da nouvelle vague, movimento no qual se insere a obra cinematográfica de Godard. E Alphaville é um mix de cinema noir, com ficção científica, comic books, George Orwell, Aldous Huxley. Como se observa na amostra dos gametas, ambas as obras foram geradas num mesmo contexto embrionário: o da Poesia.

Um comentário:

adalberto müller disse...

1650 (aprox.)
MALHERBE: Langage, mon beau souci.

2000 (aprox.)
GODARD: Montage, mon beau souci.
("Histoires du cinema")

compreenda quem quiser ver.

adalberto