- Georges Lourau, que será um dos maiores produtores franceses, propõe a René Clair assinar um contrato para quatro filmes. Durante semanas, René Clair iniciou novas técnicas, testou inovações, com apoio de sons lentos ou sobrepostos (não praticou ainda a mixagem nem a dublagem).
- Sous Le toits de Paris é um filme sonoro que não fala, ou se fala muito pouco. Havia ali o que desviar a atenção dos espectadores, que alguns meses mais tarde, curados da obsessão pela inovação, serão mais capazes de apreciar a sutileza do tratamento do som, o charme melancólico e popular desse romance “faubouriano”. Este filme marca uma data, uma referência, mas ainda é rudimentar, em um cenário frágil, com uma interpretação diferente: se Aimos e Gaston Modot são firmes no papel e se Préjean revela uma voz agradável que vai fazer dele uma das primeiras estrelas do cinema sonoro, os outros são apagados. René passa para uma nova etapa no ano seguinte, apresentando Le Million em abril, e no fim de dezembro, A nous la liberté.
- Clair escreveu a primeira "opereta" cinematográfica, num tom malicioso onde a ironia e a ternura estão sempre prestes a serem zombados. Em A nous la liberté, nem sempre opta pelo "cem por cento falado"
: a música e a canção conservam um papel importante, o modelo “opereta” é freqüente no cenário. O filme é a mais nova insolência da sátira social. René, o menos ideólogo dos cineastas franceses, toca no piano uma balada decididamente anarquista. A influência de Charlie Chaplin está presente, mas o filme permanece original. - Para o quarto e último filme de seu contrato com a Tobis, René retorna às ruas de Paris. Quatorze Juillet não tem uma linha dramática, mas segue por notações sucessivas, justas, engraçadas, comoventes, pitorescas, com uma série de personagens, como um motorista de táxi e uma vendedora de flores (maravilhosa Annabella), cujo idílio se perderá na amargura.
- René Clair faz realmente a junção entre o mudo e o falado. Para impor a coerência desta fase de sua criação, ele dispõe de condições de trabalho excepcionais ao redor de uma equipe não menos excepcional que ele reuniu.
- É verdade que os filmes de Clair parecem às vezes sofrer de anemia. Jacques Prévert, estava certo quando disse maldosamente: “René Clair é o inventor do cinema sem realce”. Clair colocou Georges Perinal (responsável pela imagem) para procurar uma imagem clara, brilhante, inteiramente construída em tons de cinza, ao contrário da luz alemã, derivada do expressionismo e propagada pelos operadores alemães imigrantes, que começaram a impor seus fortes contrastes entre branco puro e preto absoluto. Em seus scripts, René Clair fugia, por descrição e pudor, dos destaques, das paixões descontroladas, dos conflitos extremos.
- Em 1930, Sous le toits de Paris tem como herói um cantor das ruas. Mas, em 1931, A nous la liberté se desenrola em uma usina fonográfica, lembrando que o disco vem revolucionar a difusão da música e da canção.
- René Clair é o primeiro cineasta francês a desenvolver um estilo de expressão pessoal e ilustrar de maneira significativa. Quando Jean Renoir lança seu primeiro filme sonoro, La Chienne (em novembro de 1931), Clair já tinha terminado seu terceiro filme. De 1930 a 1934, René Clair transforma a inovação técnica em instrumento estético.
Fragmentos extraídos de Billard, P. L'âge classique du cinéma français: du cinema parlant à la nouvelle vague. Paris: Flammarion, 1995. Chapitre 1, 61-65.
Talita Faraj Faria.
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