CINEMA COMO EFEITO INDIVIDUAL
GOROVITZ, Sabine. Os labirintos da tradução: a legendagem cinematográfica e a construção do imaginário. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2006. (Cinema e estética da recepção - Cinema como efeito individual, pags 17-19) - BCE/UnB - N. Cham 82.035 G672L
O Cinema proporciona uma experiência tanto individual quanto coletiva. cada espectador irá transformar essa experiência de acordo com uma ótica estritamente particular, fazendo parte ou não do imaginário coletivo. Mais uma vez, o sentido do filme só se realiza no ato de recepção, pelo uso das faculdades humanas, um esforço cerebral que se manifesta sob a forma de uma colaboração não linear, um processo mental de atenção, memória, imaginação e emoção. Em qualquer situação, é a mente que proporciona ao cinema sua realidade, ao atualizar um filme ideal, abstrato, que só existe para ela e por ela. Assim, a mensagem cinematográficaé um potencial de efeitos despertados no processo de interação, por meio do qual a visão não se reduz a uma simples questão de estímulo da retina; é um fenômeno mental que implica todo u m campo de percepções, associações e memoriação: vê-se, de certo modo, mais do que os próprios olhos mostram, e o campo visual é como uma soma ou um mosaico de sensações. A percepção e a obra dialogam pelas capacidades organizadoras da mente, fazendo com que os sentidos docérebro modelem o mundo.
Inversamente, a obra é comunicativa desde sua estrutura, e é a partir dela que se realiza o ato de apropriação. Segundo Iser, essa estrutura corresponde ao chamado leitor implicito, ou seja um leitor virtual presente na mente do autor na hora da produção da obra, que orienta a estrutura subjacente no momento da subjetivação da mensagem pelo receptor. Assim, o filme oferece ao espectador diversos aspectos esquematizados, pontos de partida que se realizam na sua consciência para que ele efetue uma viagem seguindo estruturas irregulares. No entanto, é ele que constrói aventuras singulares pela sua condição individual. A mensagem, ao ser recebida, ultrapassa a obra projetada na tela para se relacionar com o receptor e colocá-lo em diálogo com determinações extrafílmicas.
Para além de tais hipóteses, consideramos o cinema como experiência física, de caráter compensatório: o espectador transforma sua "fantasia pulsional" em figuras apreensíveis pela consciência, por meio de uma itneração potencializada por uma situação-cinema, na qual a obra ilustra as principais disposições psíquicas do espectador que reconhece estruturas de seus processos de reação. A partir da mensagem, que atua como estímulo para preocupaçoes muitas vezes individuais, as percepções são confundidas e trabalhadas pelas projeções. O cinema coloca o indivíduo diante de uma realidade que provém, de certa forma, dele mesmo e de suas projeções. Esses elementos interagem com a percepção própria do filme, criando o que Cristian Metz chama de "corrente de induçãao (1972, p.53), ou seja, um processo interativo no qual projeções se auto-alimentam para construir o sentido. Parlelamente, existe o aspecto emocional, fundamental no que diz respeito à recepção. Jauss aborda essa discussão pelo seu conceito de prazer, de fruição. A recepção é muito mais do que um ato de atribuição de sentido; ela é uma relação de afetividade e penetração recíproca da obra no receptor e do receptor na obra. Embora exista sempre reação, adaptação e acomodação, o receptor é colocado pela encenação da obra em uma distância contemplativa que sugere um jogo de tensões: a situação conflitiva é o elemento central da interação, e a solução desse conflito ocorre no efeito de catarse que efetiva o envolvimento com a realização da obra, causando satisfação apenas quando o espectador participa dessa solução. O espectador deve restabelecer o que falta à narrativa, pois a obra está repleta de vazios, de elementos de indefinição, de pontos de fuga que não são defeitos. Ao contrário, constituem a condição elementar de comunicação da mensagem, possibilitando ao receptor participar da produção de sentido. Ao preencher esses "buracos", o espectador disponibiliza sua imaginação, e subjetividade , que se fundem com a estrutura subjacente do texto para dar vazão a u m sentido inaugural. Assim os vazios efeivam o "espectro de relização" (ISER, 1996, p. 169), ou seja, a mensagem torna-se privada quando o espectador, como sujeito individual, a incorpora às suas próprias experiências.
Logo, o homem usa suas faculdades mentais para participar ativamente do jogo e para preencher essas "lacunas" por meio de investimentos intelectuais e emocionais. Essa combinação cumpre a condição para que a experiência cinematográfica se inscreva na esfera do estético. Assim como a literatura, o cinema estabelece uma comunicação descontínua com o espectador. Para além desses "vazios", uma estrutura subjacente orienta a interpretação. Isso significa que, apesar de tudo, a compreensão não é aleatória.
Postado por Norma Regina
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