Blog criado pelos alunos do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, do curso sobre CINEMA, CANÇÃO E LITERATURA NA FRANÇA, ministrado pelo professor Adalberto Müller, para divulgar textos, imagens e canções.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

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Encontro com Frédéric Sanchez, curador da Exposição Gainsbourg 2008 no Museu da Música.



Cité Musiques: Como você foi levado à participar desse projeto?

Frédéric Sanchez: Gainsbourg tem muitos pontos em comum com Bob Dylan, David Bowie, Patti Smith. Todos esses criadores não falam só de música, mas também de literatura, pintura... Eles não estão fechados em um só domínio. Pessoas como eu se construíram em toda uma cultura literária, pictural, graças à riqueza desses artistas. Esse é o ponto de partida da exposição.



O que o levou a Gainsbourg?

Gainsboug é um desses artistas tranversais com uma cultura eclética que conseguiu na época trabalhar fora das etiquetas e tocar um público tão vasto quanto diretores, cineastas, artístas plásticos, músicos cada um de nós. Ele me ensinou que tudo é possível.



Como você o descobriu verdadeiramente?

Meu tio tinha o disco Melody Nelson na casa dele. Eu tinha 6 anos e o escutava. Eu lembro também de um álbum que Gainsbourg fez para Catherine Deneuve no fim dos anos setenta, chamado Souviens-toi de m'oublier. O título tinha uma alusão à Maurice Maeterlinck. Gainsbourg tinha escolhido uma atriz, tinha escrito para ela canções e tinha elaborado-as junto, para criar uma obre total, completa. O álbum tinha saído no verão e o Nouvel Observateur tinha publicado uma foto-romance ilustrada com fotos de Catherine Deneuve por Helmut Newton. A atriz contou seu gosto pela noite e os excessos. Tudo isso era verdade ou mentira? Onde se encontrava a fronteira entre sonho, realidade e fantasia? Eu adoro essa dualidade e o que isso provoca em nós, as imagens, as correspondências, uma outra "realidade" múltipla. Isso é um dos fundamentos da obra giansbourrienne.



O que você aprendeu sobre o artista?

Eu já conhecia seu trabalho de músico, suas referências clássicas, suas colagens, suas autocitações... Eu descobri sua técnica de escritura, suas rimas livres e a força de sua formação clássica. Eu tinha intuições sobre a natureza de seu trabalho, eu pude verificá-las ao longo de minhas pesquisas. E depois, eu me familiarizei com o período reggae que eu não conhecia muito bem. O trabalho com as palavras encontra nesse período um resultado particular com essa negligência trabalhada.



Qual foi o procedimento em suas pesquisas?

Eu comecei escutando tudo de Gainsbourg, lendo tudo que havia sido escrito sobre ele e relendo certas referências literárias, Huysmans, Mirbeau, Lautréamont... Depois eu mergulhei nas imagens! Eu comecei logo depois meu trabalho de colagens e associações. Em seguida eu encontrei a familía. Era muito importante para mim ter o seu aval e escutar as suas impressões em relação ao projeto. Eu trabalhei com Charlotte Gainsbourg. Ela foi sensível ao fato de que eu apresento seu pai sobretudo como um artísta. O público conhece muito Gainsbourg pelos detalhes de sua vida privada, seu lado escandaloso, mas seu trabalho artístico é ignorado. Nós pedimos à Charlotte que nos emprestasse certos objetos emblemáticos da rua de Verneuil, como L'Homme à tête de chou, a escultura de Claude Lalanne que ele tinha comprado em uma galeria da rua de Lille e que lhe deu a idéia de partida de um de seus concepts-albums. Ela nos confiou também um certo número de manuscritos, objetos e documentos ligados ao seu trabalho de escritor.



Como você trabalhou com a parte sonora da exposição?

Nós pedimos para alguns de seus intérpretes - Vanessa Paradis, Bambou, Alain Chamfort, Isabelle Adjani, Jane Birkin, Charlotte Gainsbourg, Catherine Deneuve... - lerem seus textos. Essas gravações misturadas às suas composições, às suas referências musicais e também algumas passagens de emissões de rádio, filmes ou de documentos da época constituem a base do trabalho sonoro. Isso será mostrado como plena expressão no espaço, acompanhando o visitante em todo o seu percursso.



Quais são as canções que, particularmente, você mais gosta?

Eu adoro Dépression au-dessus du jardin, Je suis venu te dire que je m'en vais, Fuir le bonheur de peur qu'il ne se sauve, os álbuns L'Homme à tête de chou e Melody Nelson. Eu citarei também o álbum Rock Around The Bunker, com Eva e Nazi rock, uma idéia bastante maluca, tigida de escárnio e cinismo; acentos de rocks "musette" misturado com um perfume de opereta e cabaré.



Por que você quis começar a exposição pelo "período calouro"?

E' como uma piscadela à la Picasso, uma citação do próprio Gainsbourg. Ele evocava o início de sua carreira como seu período de calouro. Penso também no calouros, como uma forma de melancolia ligada ao desraizamento... Nós evocamos nossos pais, a Rússia e a pintura. A aprendizagem que ele teve com pintores como André Lhote e Fernand Léger. A vida o impulsionou para a música. Seu pai disse uma vez: "Agora, é necessário que você ganha a tua vida!". Eu mostro também o choque do encontro com Boris Vian, que foi ao mesmo tempo jornalista, músico e escritor.



O que você pensa quando vê o rebelde Serge Gainsbourg consagrado por uma instituição como a Cidade da Música?

O Museu da Música já tratou de figuras rebeldes: Hendrix, Lennon e mesmo Wagner. Contudo, podemos colocar a questão da rebelião em Gainsbourg, que contrariamente à aceitação que tiveram alguns, passa também algumas vezes pela reação, uma ligação à ordem, à hierarquia que vem de sua história pessoal. Ele era também muito sensível à idéia de transmissão. O Museu é uma forma de consagração.



Que tipo de público você espera?

Todos os públicos, todas as gerações. Gainsbourg é um ícone... E' necessário preservar seu mito.



Propos Recuillis par Stéphane Koechlin



Traduzido por Rebbeka Del Aguila

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