Blog criado pelos alunos do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, do curso sobre CINEMA, CANÇÃO E LITERATURA NA FRANÇA, ministrado pelo professor Adalberto Müller, para divulgar textos, imagens e canções.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Désenchantement do Cinema Francês

Marcos A.P. Ribeiro

Entre a Nouvelle Vague - fins dos anos cinqüenta e início dos sessenta - e o cinema francês dos últimos vinte anos, observa-se acentuada diferença de perspectiva.

Naquele movimento, os personagens, como se envoltos em aura de elegância rapsódica, atuam com leveza bem-humorada e admirável capacidade de revestir o cotidiano de encantamento, o que parece um modo de resistir ao embrutecimento conseqüente à sociedade urbano-industrial.

A Paris daquele tempo, presença constante nessas películas - muitas ainda em preto e branco -, é apresentada com melancólicos bulevares de árvores desfolhadas, automóveis Citroën de suspensão modulável, pessoas vestindo amarrotadas capas de gabardine, fumando Gauloise ou Gitanes em enfumaçados Cafés literários, solitários ou em meio a discussões filosóficas que quase sempre conduzem à cama.

Em Les Quatre Cents Coups (François Truffaut, 1959), uma criança rebelde (Jean-Pierre Léaud) - evidentemente inspirada na juventude marginal de Truffaut - revolta-se contra a lógica do mundo adulto, que lhe parece falsa, e, recorrendo a atitudes e raciocínio próprios, dotados de lirismo infantil, constrói versão da realidade, aos seus olhos, mais coerente. Paris é uma cidade envelhecida, confusa e pobre, porém encantadora; impressão para a qual contribui a convergência do preto e do branco para um elegante tom cinza.

Em À Bout de Souffle (Jean-Luc Godard, 1959), o protagonista (Jean-Paul Belmondo) é um delinqüente, mas suas ações - assassinatos, agressões físicas, roubos - encenadas de maneira propositadamente não-realista - são realizadas com tal charme e donaire que quase nos convence que essa é a vida autêntica e verdadeira e que os desenxabidos e honestos pequeno-burgueses que ele vitima, bem o merecem, por mediocridade.

Em Jules et Jim (François Truffaut, 1962), dois homens, Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre), dividem o amor de uma mulher, Catherine (Jeanne Moreau). A despeito do fim trágico e de certa tensão dramática que o antecede, o filme transcorre numa atmosfera lúdica, encantadora; o ménage à trois é encarado com naturalidade e os três divertem-se juntos, andando de bicicleta, convivendo domesticamente como família, indo à praia, viajando de trem.

Se na Nouvelle Vague os personagens fazem as coisas mais vulgares (desjejum, banho, passeios a pé) e mais terríveis (assassinatos, agressões, roubos), com indefectível charme - introduzindo sortilégio e poesia ao momento -, nos filmes franceses dos últimos anos a situação se inverte: agora, todas as coisas, até as mais importantes e transcendentes, são realizadas com descaso, tédio, ostensiva deselegância.

Em La Haine (Mathieu Kassovitz, 1995), os três atores principais (Vincent Cassel, Said Taghmaqui e Hubert Kounde), representando jovens com os mesmos nomes, vivem numa banlieue parisiense feia e violenta, com habitantes agressivos e revoltados, em asfixiante atmosfera que contrasta com a elegância e o refinamento dos franceses ricos. O subúrbio nada tem de especificamente francês: poderia estar localizado em qualquer metrópole ocidental; os jovens ouvem rap e usam agasalhos esportivos com a marca do fabricante.

Em La Vie Revée des Anges (Erick Zonca, 1998), duas garotas (Elodie Bouchez e Natacha Regnier) resistem à integração à sociedade capitalista-industrial, sobrevivendo com trabalhos anódinos, mal-pagos; humilhadas e expostas ao ridículo. Vivem, de favor, num apartamento de alguém que está em coma num hospital.

Se a Nouvelle Vague é, em grande parte, a expressão cinematográfica dessa simetria francesa, o que significa o novíssimo cinema francês?

Postado por : isabella Mejia - 05/28366

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