Na contemporaneidade, podemos pensar a diferença entre a música popular de mercado e a música erudita a partir das experiências de tempo opostas que elas promovem. Enquanto a música de massa é fundada no pulso rítmico, na repetição e na escuta linear, a música erudita contemporânea é considerada uma música das “alturas” sonoras, contestando o pulso rítmico, a repetição e a escuta linear. Em O som e o sentido, José Miguel Wisnik aponta que a música popular é uma música do corpo, pautada na “mesmice somática”, que ele define como “dança hipnótica dos quadris”. Já a música contemporânea de concerto é uma música da cabeça, na qual ocorre o “desprendimento do ‘fio terra’ corporal”, que Wisnik define como “a dança do intelecto”. Adorno aponta dois grandes caminhos do experimentalismo musical: “a planificação inovadora de Schoenberg e o ecletismo irracional de Stravinsky”. Segundo Fredric Jameson, Adorno professava um diagnóstico que veio a se tornar realidade: Stravinsky seria o verdadeiro precursor da produção cultural pós-moderna, uma vez que o dodecafonismo produzia um sistema acabado e estéril. Wisnik explica que a música minimalista representa uma releitura do sistema tonal com influências do modal, e reproduz o caráter serial-repetitivo do mundo pós-industrial informatizado, onde se engendra a repetição da repetição em larga escala, com proliferação generalizada dos simulacros. Já a música dodecafônica representa a experiência urbano-industrial da simultaneidade, da fragmentação e da montagem, técnicas de choque fundadoras da arte das vanguardas. A canção popular, de um modo geral, combina a repetição ao sistema tonal da música clássica (levado ao extremo pelos românticos como Mahler e Wagner), podendo até chegar às nuances do impressionismo de Debussy, mas não ousa um vôo pelos píncaros da atonalidade, até porque essa não é sua finalidade.
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