Blog criado pelos alunos do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, do curso sobre CINEMA, CANÇÃO E LITERATURA NA FRANÇA, ministrado pelo professor Adalberto Müller, para divulgar textos, imagens e canções.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Vanguardas do Brasil e da França descobrem o samba

Na Paris dos idos de 1920 e 30, o jazz ganha um destaque considerável na programação das casas de espetáculos. O crítico Jean-Claude Klein considerava que, a depender do meio social, as pessoas viam no jazz um ritmo de negros, uma música ou dança da moda ou mesmo uma expressão perfeita da modernidade, carimbada pelos artistas de vanguarda.
Aqui no Brasil, é a época em que o samba vive uma onda crescente de produção, expansão e mesmo sucesso. O Rio de Janeiro, então capital do país, havia recebido desde fins do século XIX famílias de migrantes baianos, negros, muitos ex-escravos. Algumas dessas famílias firmaram-se com o tempo em referência na comunidade abrindo suas casas aos vizinhos e amigos e promovendo encontros e eventos culturais que iam da religião até festas e reuniões de criação de letras e melodias. O samba nasce portanto à margem da sociedade, como coisa de preto, perseguido da polícia, “ritmo maldito”, como bem escreve Hermano Vianna em O Mistério do Samba (Jorge Zahar, 2002).
Enquanto diversos ritmos nacionais e estrangeiros convivem e animam festas Brasil afora, o samba entre eles, uma tendência cultural forte passa a impor enquadres específicos e a cultivar a idéia de um projeto de nação – algo que mais tarde vai ser assumido por Getúlio Vargas como uma política de estado – que passa pela valorização da mestiçagem vista então como opção pela “unidade da pátria” e um caminho para a homogeneização.
Nesse momento em que o jazz já se tornara uma música negra americana conhecida no mundo, o samba começa seu caminho para se firmar como o ritmo musical nacional por excelência. Intelectuais brasileiros como Gilberto Freire, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Prudente de Moraes Neto entre outros descobrem os ritmos e a culinária afro-brasileira.
Estava em curso o movimento modernista e a valorização de uma essência estética pátria. Artistas e intelectuais brasileiros travam contato e dialogam com vanguardistas europeus. Um deles foi o poeta francês Blaise Cendrars que visitou o Brasil e incursionou pelas favelas cariocas apreciando da música aos produtos da cozinha e nossa cachaça. Em um artigo de 1926, Freire credita a ele ter ensinado aos “amigos modernistas brasileiros’, o respeito pelas ‘coisas brasileiras” (id.: 95). A paixão pela negritude de Cendrars não é algo casual. Vianna o considera “um dos principais agentes dessa ‘invasão negra’ na arte francesa, sendo inclusive o editor de uma Antologia Negra, publicada em 1921 que colocava lado a lado mitos e lendas de todas as etnias africanas com poemas e contos de escritores modernos da África.
Mas não foi só a França que veio ao Brasil. O Brasil também foi à França. O sambista Donga conheceu Cendrars lá quando esteve com seu grupo Oito Batutas em turnê. Mas isso já é assunto para um próximo papo.
André Ricardo

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