
A França de 1930 foi palco de profundas transformações sociais. A crise capitalista de 1929 deixava suas marcas e abria espaço para o surgimento das várias formas de fascismo que assolavam a Europa, juntamente com a miséria e o sentimento de descrença. Nessa mesma época a Alemanha, que conheceu o fim do império prussiano em 1918, já estava totalmente fragilizada e via o crescimento de partidos socialistas. A tensão entre republicanos e socialistas se firmou, e muitos daqueles que se viam prejudicados pelo desemprego ou por toda dificuldade que a crise trazia tentavam organizar-se politicamente. Tais questões levaram os intelectuais à “preocuparem-se com o sentimento do mundo”. Daí a produção artística inspirar-se na realidade e, com isso, mostrar uma forma política de ver o mundo. Na década de 1930 a canção foi um instrumento muito utilizado pelos artistas. Era a voz desesperada da realidade que emanava e impunha aos ouvidos alheios a dificuldade, a miséria, a vida “podre” e caótica de uma sociedade que havia acreditado na força da modernidade. A canção era ainda, de acordo com as observações de Fred Hidalgo, no livro de Marc Robine “Il était une fois la chanson française”(1), o reflexo mais fiel daquilo que pode animar, divertir, agitar, como também daquilo que pode indignar, subverter, perturbar, ou ainda, das aspirações de uma sociedade. Feita por pessoas de todas as condições sociais, difundidas e transmitidas por elas às gerações futuras, a canção de um país nos fala de seus habitantes, de sua vida, de sua história, de seus hábitos, de suas crenças, de sua evolução e de suas aspirações, tal como um bom tratado de sociologia. A canção realista da década de 1930 ganhou uma característica marcante: era produzida pelo ponto-de-vista de quem vivia o caos, a miséria etc – posição realista. Quase sempre era conduzida por uma cantora (mulher que vivia em condições de penúria, muitas vezes na prostituição) que fazia referência ao mundo das drogas, enfim, ao submundo. Ainda nessa década a canção realista foi para o cinema que estava em transição do mudo para o sonoro. Tanto Fréhel com Piaf são bons exemplos de cantoras realistas que expressavam um certo grito de desespero da classe sofredora. La coco (a cocaína) interpretada por Fréhel fala bem desse submundo.
OBS.: acima foto da cantora realista Fréhel.
Fonte: (1) ROBINE, Marc. Il était une fois la chanson française: des trouvères à nos jours. Fayard.Alessandra L. Lima
Um comentário:
bravo!
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