Blog criado pelos alunos do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, do curso sobre CINEMA, CANÇÃO E LITERATURA NA FRANÇA, ministrado pelo professor Adalberto Müller, para divulgar textos, imagens e canções.

domingo, 14 de setembro de 2008

Sobre Gainsbourg

Inveja dos desejos

Antigo cantor de Taxi Girl, Daniel Darc, ícone do imaginário rock que a Cité de la Musique acolherá em 21 de fevereiro, evoca com fervor a personalidade e a obra de Serge Gainsbourg.

Cité Musique - Por que essa paixão por Gainsbourg?
Daniel Darc - Eu não penso que sou apaixonado por Gainsbourg, Mas eu tenho muito respeito por ele, como o tenho por Bob Dylan. Eu me identifiquei com ele, pois ele é um judeu russo. Ele, como eu, em um pequeno nível, somos imigrantes, e essa qualidade é importante. Ele é o único autor, com Boris Vian ou Prévert, que conseguiu criar algo de único na linguagem, baseado nas gírias. Eu penso que Jean Genet também. Mas a gíria de Gainsbourg não envelhece.

Ele o fez descobrir a literatura?
Com certeza. Eu o sigo de certa forma às avessas, como diria Huysmans. Foi através de Patti Smith que descobri Godard por exemplo. Gainsbourg nos fez conhecer Tristan Tzara, Verlaine, William Burroughs. De fato, Gainsbourg me ajudou muito e ao mesmo tempo me amaldiçoou. Eu me perguntei: "O que eu posso fazer depois dele?" Eu não pude escrever durante algum tempo, depois eu recomecei. Eu pensava na frase de Bukowski, "Não tente", que pode ser que eu coloque na minha próxima tatuagem.

O personagem de Gainsbourg lhe influênciou?
Você quer dizer o personagem de Gainsbarre. Não, não é esse personagem o que mais me interessa. Ele me dá medo. Ele caiu em sua própria armadilha, com esse lado Dorian Gray presente desde o início. Mas ele é tão genial que esquecemos isso. Ao mesmo tempo, ele conseguiu dirigir sua decadência e sua morte. Havia esse lado punk evidentemente.

Em quais circunstâncias você gravou a reprise de uma canção de Gainsbourg, Comment te dire adieu, no fim dos anos oitenta?
Era um álbum produzido por Jacno (Sous influence divine, 1987). Eu adorava o texto da canção que parecia com um soneto. E depois ela era cantada por Françoise Hardy que eu amo. Eu não queria necessariamente colocar minha pata sobre esse clássico. Eu só queria fazer minhas coisas. Em tudo o que começo eu sou guiado por meus desejos.

Muitas vezes você não incluiu Gainsbourg...
Não, uma reprise em trinta anos é o suficiente.

Ele inventou uma língua para o rock na França?
Sim. Eu não aguento mais ouvir um músico dizer: "Eu canto em inglês porque é a língua do rock." Não, a língua do rock não é o inglês. Você faz o que você quer. Se você olhar os Beatles, eles escreveram textos idiotas até Help, quando Lennon começava a ser fortemente torturado. Um músico como o líder do grupo da new-wave Television, que leva o nome de Tom Verlaine, mostra que temos a mais bela língua.

Qual é o seu disco preferido de Gainsbourg? Melody Nelson?
Melody Nelson é qualificado como concept-album. Mas você sabe, nos somos escrogues (risos). Alguns não reconhecem. Eu sim. Seria necessário colocar três vezes o mesmo nome para que se falem que é um concept-album? Isso não é um romance, de qualquer forma. Aliás, Gainsbourg escreveu só um romance, e é horrível, Evgueni Sokolov. Em Melody Nelson, não existe coerência, contrariamente ao enfadonho Tommy des Who. Meu álbum preferido é Vu de l'extérieur. La Folle Complainte de Trenet é a mais bela canção escrita em língua francesa. Mas existe outra que é formidável, é Par hasard et pas rasé.

Como você explica a celebridade de Gainsbourg hoje?
Se ele tivesse nascido nos Estados Unidos, não falaríamos dele. E eu não digo isso por maldade. Ele sempre mostrou uma engraçada ambivalência com o universo anglo-saxão daqui. A Chanson du forçat é inspirada em Bob Dylan. Ele disse algo essencial: não podemos mais inventar nada, senão o amor. Uma vez, um cara me perguntou: "Você não se sente pequeno em relação à Gainsbourg?" E eu respondi: "Não. Eu sou mais forte que Gainsbourg, pois Gainsbourg roubou tudo de Vian, e eu roubei tudo de Gainsboug!"

Existem periodos que você não gosta dele?
Ele compôs uma das piores canções francesas, White And Black Blues, com aquela mulher de origem africana, Joëlle Ursule, para o Eurovision. Mas até nisso me sinto próximo dele. Um autor deve cometer gafes, dar foras. Imagine: você esta embriagado e vai pra cama com uma mulher nesse estado, e no dia seguinte, você se levanta, e a realidade lhe salta aos olhos. Uma canção, é parecido.

Ele teve razão de ir ao Eurovision?
Ele teve razão sobre tudo. Bem, na segunda vez, ele levou a disputa à sério, mas isso não tem nenhuma importância. Você sabe, antes, eu queria gravar o melhor disco de todos os tempos. Depois da saída do último, eu disse para mim mesmo: bem, eu devo fazer um outro depois, e depois um outro... E pode ser que em algum momento eu alcance meu objetivo, eu deixarei alguma coisa para as pessoas. Gainsbourg pensava assim.

Gainsbourg e você mesmo, artistas à margem, são agora reconhecidos. Quais sentimentos isso inspira em você?
Eu acho graça de ser reconhecido. Gainsbourg foi reconhecido pelas boas razões? Conhecemos ele mais por Gainsbarre. Esse grande artista nunca sonhou com um Rolls. E ele o obteve. Eu me recordo em Fast Cars, a canção dos Buzzcocks: "Je déteste les voitures rapides". Eu nunca sonhei em ser um apreciador, ou coisa parecida.

Você é produzido em todo lugar, em bares, no Olympia e agora na Cité de la musique. Onde você prefere tocar?
Eu prefiro os bares, porque eu vejo as pessoas cara a cara. Mas eu toco diante do mundo, mas eu tenho medo...

Propos recuillis par Stéphane Koechlin et Pascal Huynh.

Cité MusiquesLa Revue de la Cité MusiqueNo. 58 - septembre à décembre 2008

Traduzido por Rebbeka Del Aguila

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